
Stabat Mater (Hino da Sexta-Feira Santa) – Jacopone da Todi
Stabat Mater dolorosa
juxta crucem lacrimosa,
dum pendebat Filius.
Cuius animam gementem,
contristatam et dolentem
pertransivit gladius.
O quam tristis et afflicta
fuit illa benedicta
mater Unigeniti!
Quae maerebat et dolebat,
pia mater, dum videbat
nati poenas inclyti.
O Stabat Mater é uma das obras-primas absolutas da poesia mística e litúrgica cristã, um hino que acompanha há séculos a meditação dos fiéis durante a Semana Santa, particularmente na memória de Nossa Senhora das Dores e ao longo das estações da Via-Sacra. O texto abre-se com a poderosa imagem da Mãe de pé, transpassada pela dor, num silêncio carregado de angústia, sob a madeira da cruz onde pende o Filho moribundo.
Do ponto de vista histórico, a atribuição desta extraordinária composição está tradicionalmente ligada à figura de Jacopone da Todi (1236-1306), distinto poeta franciscano e frade menor, conhecido pelo seu fervor espiritual e pela radicalidade evangélica. Contudo, ao longo dos séculos, a crítica académica avançou hipóteses alternativas, atribuindo-o por vezes ao Papa Inocêncio III ou a São Boaventura. Apesar das incertezas sobre a paternidade literária, o texto reflete plenamente a sensibilidade religiosa do século XIII, fortemente influenciada pela espiritualidade franciscana que colocava no centro da contemplação a humanidade sofredora de Cristo e a compaixão da Virgem.
Teologicamente, o Stabat Mater explora o conceito profundo da compassio: Maria não é apenas uma espectadora passiva do sacrifício redentor, mas participa nele intimamente com o coração («pertransivit gladius», a espada trespassou-lhe a alma, segundo a profecia de Simeão). Este hino conseguiu elevar a dor humana a uma dimensão universal e salvífica, oferecendo a gerações de crentes uma voz para expressar a sua proximidade ao mistério da cruz. A sua beleza formal, caracterizada por rimas penetrantes e por um ritmo cadenciado, inspirou também, ao longo dos séculos, imensas obras-primas da música sacra assinadas por autores do calibre de Pergolesi, Rossini e Verdi.




