
Victimae Paschali Laudes (Sequência de Páscoa) – Wipo de Borgonha
Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós.
À Vítima pascal, louvores
ofereçam os cristãos.
O Cordeiro remiu as ovelhas:
Cristo, inocente, ao Pai
reconciliou os pecadores.
A morte e a vida, em duelo<conflixere mirando:
travado em combate singular:
o Autor da vida morreu, mas reina vivo.
Dizei-nos, Maria, que vistes no caminho?
Vi o sepulcro de Cristo vivo,
e a glória do que ressuscitou.
Vi os anjos, as testemunhas, o sudário e as vestes.
Ressuscitou Cristo, minha esperança:
irá adiante dos seus na Galileia.
Sabemos que Cristo ressuscitou verdadeiramente dos mortos:
tu, Rei vitorioso, tem piedade de nós. Amen. Aleluia.
O Victimae Paschali Laudes representa uma das obras-primas absolutas da hinografia cristã e da liturgia da Igreja Católica. Composto no século XI, a tradição atribui unanimemente este hino a Wipo de Borgonha (Wipo Burgundus), capelão na corte dos imperadores Conrado II e Henrique III. A sequência foi concebida numa época de fervor cultural e espiritual, inserindo-se no período em que a liturgia pascal procurava novas formas expressivas para celebrar o Mistério Central da fé cristã.
Do ponto de vista teológico, o texto é um condensado admirável do querigma apostólico. O trecho abre-se com um convite solene a louvar a Vítima pascal, evocando a imagem bíblica de Cristo como Cordeiro imolado que reconcilia a humanidade pecadora com o Pai. De extraordinário poder é o versículo central que descreve o duelo cósmico entre a Morte e a Vida («Mors et vita duello conflixere mirando»), onde o Autor da vida, apesar de ter morrido na cruz, reina agora glorioso e imortal.
Uma das curiosidades históricas e literárias mais fascinantes desta sequência é a presença de um diálogo dramático, uma espécie de embrião do teatro sacro medieval (os chamados Quem Quaeritis). A assembleia ou o cantor interroga Maria Madalena («Dic nobis Maria, quid vidisti in via?»), que responde testemunhando o encontro efetivo com o Sepulcro vazio e com os sinais da ressurreição, antecipando a proclamação de fé final.
Mantida na reforma litúrgica pós-conciliar como sequência oficial do dia de Páscoa e da sua Oitava, a Victimae Paschali Laudes continua a ressoar nas igrejas de todo o mundo. Ela une a profundidade da reflexão dogmática à beleza lírica da poesia medieval, lembrando a cada crente que Cristo ressuscitou verdadeiramente e que n’Ele toda a humanidade encontra a sua esperança e a sua redenção.




